A maioria das PMEs ainda perde horas todos os meses a comparar preços de voos, a preencher formulários de reserva e a validar pagamentos manualmente. Agora, o comércio agentivo nas viagens promete eliminar essas tarefas repetitivas: a eDreams ODIGEO e a Visa acabam de anunciar uma parceria para criar protocolos seguros que permitem a agentes de IA fazerem compras de viagens de forma autónoma. E o melhor? Tudo com a mesma segurança de uma transação bancária tradicional.
O que é o comércio agentivo nas viagens e como funciona
O comércio agentivo é a capacidade de um software agir como se fosse um comprador humano, tomando decisões e executando transações dentro de regras predefinidas. No contexto das viagens, um agente de IA pode pesquisar voos e hotéis, comparar preços, aplicar a política de viagens da empresa e finalizar a compra — sem que ninguém tenha de abrir o browser.
A parceria agora revelada junta a eDreams ODIGEO, uma das maiores agências de viagens online da Europa, com a Visa, líder global em pagamentos digitais. O objectivo é criar normas técnicas que garantam que um agente de IA consegue não só encontrar a melhor opção de viagem, mas também pagar com um nível de segurança equivalente ao de um cartão corporativo. Isto resolve um dos maiores bloqueios à adopção de agentes autónomos: a confiança no momento do pagamento.
Na prática, um colaborador poderá dizer ao seu assistente digital: “Preciso de estar em Barcelona na terça-feira, com regresso na quarta, até 400€”. O agente consulta os inventários da eDreams, cruza com as regras de despesas da empresa, escolhe a opção mais equilibrada e conclui a reserva. Tudo em segundos, com rastreabilidade total e sem partilhar dados do cartão com terceiros.
O que diferencia esta abordagem das alternativas actuais
Até agora, as empresas tinham duas opções para gerir viagens: ou delegavam num assistente humano, que gastava horas em pesquisas e telefonemas, ou usavam plataformas de gestão de viagens que, na verdade, apenas agregavam resultados — a decisão e o pagamento continuavam a ser manuais. Algumas ferramentas permitiam guardar cartões para “one-click checkout”, mas sem a inteligência para negociar tarifas ou respeitar políticas internas.
O que a eDreams ODIGEO e a Visa estão a construir é diferente. O agente não é um simples comparador: ele age como um comprador com procuração, mas com limites claros. A Visa traz a infra-estrutura de tokenização e autenticação forte, enquanto a eDreams fornece o acesso ao inventário e a lógica de recomendação. O resultado é um sistema que pode reduzir o tempo gasto em reservas empresariais de horas para minutos, com menos erros e maior conformidade.
Outra diferença crucial é a segurança. Em vez de partilhar números de cartão com múltiplos sites, o agente usa tokens únicos gerados pela Visa para cada transação. Se um token for interceptado, não pode ser reutilizado. Isto coloca o comércio agentivo nas viagens num patamar de protecção que as compras manuais raramente atingem.
O que isto significa para PMEs portuguesas
Para uma PME com 10 a 20 colaboradores que viajam regularmente, o impacto pode ser imediato. Um estudo interno da eDreams ODIGEO citado pelo Jornal Económico sugere que a automatização total da reserva pode poupar até 3 horas por viagem, entre pesquisa, comparação e aprovação. Numa empresa que faça 20 viagens por mês, são 60 horas libertadas para tarefas mais produtivas.
Além da poupança de tempo, há um ganho financeiro indirecto: o agente respeita sempre a política de viagens, evitando reservas fora do orçamento ou upgrades não autorizados. E como tudo fica registado, a reconciliação de despesas — um pesadelo para muitos directores financeiros — passa a ser automática. Para empresas que já utilizam soluções de inteligência artificial nos processos internos, esta é uma extensão natural.
No entanto, é importante notar que a tecnologia ainda está em desenvolvimento. Os primeiros pilotos deverão surgir durante 2026, mas a adopção em massa dependerá da integração com os sistemas de gestão de despesas já usados pelas PMEs. Quem começar a preparar-se agora — revendo políticas de viagens e mapeando processos — estará em vantagem quando o comércio agentivo nas viagens se tornar uma realidade comercial.
O erro que a maioria comete
A maioria das PMEs ainda trata a gestão de viagens como uma actividade administrativa menor: uma folha de Excel, um cartão de crédito partilhado e a confiança de que cada colaborador fará a escolha certa. O resultado é uma combinação de falta de controlo, despesas fora da política e horas perdidas a reconciliar faturas no final do mês. Ignorar a automatização inteligente neste domínio é continuar a gastar recursos que podiam ser canalizados para o crescimento do negócio.
Riscos e limitações
O comércio agentivo nas viagens ainda não está pronto para todas as empresas. A versão actual exige integração com plataformas específicas — neste caso, a eDreams ODIGEO —, o que pode limitar a escolha de fornecedores. Além disso, a segurança, embora robusta, depende da correcta implementação dos protocolos; uma configuração deficiente pode expor dados. Para PMEs com um volume de viagens muito baixo (menos de 5 por mês), o investimento em adaptação pode não se justificar a curto prazo. E, como em qualquer sistema baseado em IA, há o risco de o agente tomar decisões que, embora dentro das regras, não agradem ao utilizador — por exemplo, escolher um voo com escala longa para poupar 20€.
Veredito Descomplicar®
O comércio agentivo nas viagens é uma tendência a acompanhar de perto, sobretudo se a sua empresa gasta mais de 500€ por mês em deslocações e quer reduzir a carga administrativa. A parceria entre a eDreams ODIGEO e a Visa dá credibilidade ao conceito, mas ainda estamos na fase de protocolos, não de produto final. Para já, o melhor que uma PME pode fazer é auditar os seus processos de viagens e começar a testar automações simples com as ferramentas que já existem. Quando os agentes de IA estiverem prontos para o mercado, quem tiver as bases organizadas será o primeiro a beneficiar.

